domingo, 23 de junho de 2013

Divagação fantasiada

Após incontáveis horas estiradas em uma confortável cama, sem dizer uma palavra ou gargalhar muito alto, estaríamos agora divertindo-nos graças ao poder dos consoles. A garrafa de vinho ao lado, sob o poder de um pileque colossal, riríamos de tudo e de todos. Eu alisaria o braço dele, sussurraria coisas ao pé do ouvido, enroscaríamos os pés. Viríamos filmes nonsense e passaríamos o resto da semana comentando sobre como o terror psicótico é genial. Arrumaríamos diferentes jeitos de burlar as regras e nos finais de semana dançaríamos até que não houvesse mais música.
   Diferente de todos, ele riria sempre que eu quebrasse ou sumisse algo - e do quanto isso é frequente. Ele não teria medo de fitar-me os olhos, não ligaria para as minhas estrias e nem do jeito como meu cabelo fica bagunçado e embaraçado quando acordo. Não levaria a sério minha ironia, não reclamaria dos meus shorts curtos. Falaria inglês comigo, me ensinaria inglês, ouviria meu dedilhar arranhado de uma só nota no violão, cozinharia para mim, tocaria pra mim. Opinaria nas minhas roupas íntimas, esquecendo-se de que depois ele as iria fazer sumir. No carro. Na cama. No banheiro. No jardim. Na cozinha. Na festa. Na praia. Em todo lugar. Tiraria o meu pudor.
   Eu passaria horas a admirar seu sorriso torto, sua voz de sono, seus olhos envergonhados. Ouviria incansavelmente suas palavras eloquentes - e pontuais - e opiniões sobre suas bandas favoritas, pois ele teria o mesmo gosto musical que eu, me faria conhecer tantas outras bandas, tantos outros lugares, eu o levaria para conhecer de onde eu vim e quem é o meu povo, a minha simplicidade. Sentaríamos para ver o pôr-do-sol, tomaríamos banho de mar à noite. Em meus dedos, seus cabelos formaríam cachos. Em seus ombros, eu. Ele me faria dançar quando, por descuido, eu pisasse em seu all star. Leria meus contos, apontaria meus erros, desenharia em meu corpo. Inflaria meu ego, seria retribuído.
   Estudaríamos arte e ciência. Vibraríamos a revolução. Sairíamos às ruas. Comeríamos exageradamente e encapsularíamos-nos infinitas vezes. Planejaríamos o futuro,  leríamos o mesmo livro, iríamos a todo lugar. Haveria falta de lucidez, mais pileques, delírios e altos sons. Iríamos ao céu!
   Que fantástico seria se ele estivesse aqui agora, se pudesse cantar-me ao telefone enquanto estudo pra prova de amanhã. Que fantástico seria se eu me sentisse incompleta todas as vezes que ele fosse pra casa, deixando seu cheiro em todas as minhas roupas. Que fantástico seria se ele não reclamasse da minha indiferença, incredulidade ou da minha teimosia. Que fantástico seria se ele soubesse que eu não ousaria deixá-lo, porque ele seria exatamente igual a mim. Que fantástico seria se ele existisse.


“Já perdemos muito tempo brincando de perfeição
Esquecemos o que somos: Simples de coração”

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